blogNEC | Uma poética do meio-tom

Resenha

Por Isaac Palma Brandão

3 jun. 2026

Du Bois, W. E. B. Água escura: vozes de dentro do véu. São Paulo: Fósforo, 2025. 

 

Como narrar a vida racializada no mundo moderno? Essa é uma pergunta chave para compreender o forte engajamento de muitos escritores negros e outros intelectuais racializados em refazer as maneiras de contar as histórias, não apenas mudando os pontos de vista, mas também as suas próprias composições. Essa dimensão faz de Água escura, livro de W.E.B. Du Bois, um exemplar que radicaliza a tradição modernista negra ainda no início dela.

Apesar dos mais de cem anos de sua primeira publicação, em 1920, o livro ainda traz debates e questões que estão na ordem do dia e evidencia não apenas a continuidade do problema da vida racializada, mas também que as respostas criativas e belas sempre emergiram a despeito das tentativas de apagá-las. O primoroso projeto gráfico da tradução brasileira lançada recentemente pela Editora Fósforo – encabeçado pela elegante capa, que reproduz um gráfico feito à mão por W.E.B. Du Bois – é coerente com a sua proposta estética e política original e inovadora.

O livro possibilita reler de outro modo a tensão contínua entre o particular e o universal, já que aqui as populações não-brancas não são apenas exemplares peculiares, exóticos e violentos em descompasso com a modernidade, mas são sua própria substância. Se As almas do povo negro, publicado em 1903, inaugura o estilo modernista experimental de W.E.B. Du Bois – entre ensaio sociológico e narrativa poética – e emerge tanto do particularismo negro estadunidense quanto de uma crença vitoriana fortemente inspirada pelo credo iluminista nas capacidades do homem negro de corresponder à humanidade, Agua escura, escrito um pouco mais de uma década depois, é um documento que propõem uma abertura global – em contraposição aos particularismos – e, de modo inédito, uma percepção expandida da separação dos seres humanos em categorias hierarquizadas. Assim, se revela uma leitura não apenas dos EUA, mas do mundo moderno a partir do véu – metáfora utilizada por ele para a separação racial.

Nesse livro, Du Bois vira de ponta cabeça o particularismo atribuído às populações não brancas e faz disso um método para abordar e analisar criticamente o desenvolvimento da modernidade, utilizando a categoria “mundo escuro” como forma de construir um universalismo escuro ao revés. Central para esse empreendimento é a particularização da branquidade. Em “As almas do povo branco”, um dos ensaios mais provocativos do livro, Du Bois desafia o universalismo branco. Ele mostra que, de fato, esse universalismo é uma construção particular da história recente, fundamentado em aspectos que excluem a maior parte da humanidade.

É importante ressaltar que Água escura não é um livro de ensaios sociológicos críticos, mas uma montagem complexa, descontínua e fortemente polifônica. Em As almas do povo negro, Du Bois já havia provocado um barulho considerável, construído com uma reunião de ensaios que vão do autobiográfico ao macrossociológico. No entanto, em Água escura, ele refaz o caminho de um modo mais radical. Os 21 textos que compõem o livro têm estilos discursivos e literários diferentes e isso não é apenas uma forma de experimentação literária do autor, é existencial. Partindo de novo do autobiográfico e do particular para o amplo e emergente conjunto de problemas sociais contemporâneos, ele tenta agora extrair e produzir beleza diante e a despeito da experiência do horror racial. A violência desmesurada, injustificada e constante é temática direta e indireta da maior parte dos capítulos, que também são costurados pela experiência da dualidade entre a morte e a beleza.

O aumento exponencial dos linchamentos contra homens negros e também dos conflitos raciais que aterrorizaram as populações negras no sul dos EUA na segunda década do século 20 foram alguns dos principais temas da atividade política e intelectual de Du Bois. No começo da década de 10, ele deixou a cadeira de sociologia na Universidade de Atlanta para se dedicar integralmente a NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), onde trabalhou na articulação política e na intervenção pública através da veiculação de textos no principal periódico negro do país, o The Crisis, no qual era editor.

O trabalho de escrita como intervenção pública e política se desenvolveu de modo intencional e paradigmático depois de assumir o periódico. Quando editou e escreveu o imenso volume de estudos sobre a população negra, “The Atlanta University Publications”, ainda na função de professor, essa perspectiva já estava no seu horizonte. Contudo, nos anos de NAACP, esse tipo de intervenção se tornou uma tarefa cotidiana e mudou a sua vida e a sua abordagem. Se sua nova posição e prática o colocara no centro de controvérsias importantes, como o alistamento de homens negros para lutar na Primeira Guerra Mundial, foi porque ele também via a necessidade de debater os assuntos ainda quentes, de modo experimental. Contudo, sem abandonar o rigor literário, histórico, sociológico e factual, bem como o refinamento vitoriano e a elegância própria que havia construído e vinha sendo notada publicamente pelo menos desde a publicação de As almas do povo negro.

Du Bois buscou constantemente permanecer próximo das expressões próprias da população negra estadunidense. Em Água escura, o elo é, sem dúvida, a religião. A abertura do livro ser um Credo no formato religioso tradicional não é sem motivo. Em Igreja Negra (publicado no Brasil pela Editora Recriar), ele já havia argumentado e demonstrado que as instituições religiosas negras eram o centro da vida racializada no país. Ele sabia que a linguagem e a forma das expressões culturais negras eram eminentemente religiosas. A despeito do posicionamento crítico que acumulou por anos em relação a muitas dessas instituições religiosas, ele considerava a religião importante, entre outros aspectos, porque era o espaço de linguagem compartilhado por um grupo tão heterogêneo quanto o negro estadunidense. Por razões já expressas em seus livros, ele mesmo partia desse contexto comunicativo e simbólico e fez uso abundante desse recurso em Água escura não apenas como forma discursiva ou metáfora, mas como substância do relato racializado.

Isso fica evidente não apenas no próprio Credo (texto que dá início ao livro), nas metáforas religiosas, como o véu, ou mesmo nas inumeráveis citações bíblicas diretas e indiretas (muito bem localizadas pela tradução), mas também na articulação entre a narrativa bíblica e a racializada. O conto “Jesus Cristo no Texas”, por exemplo, narra a história de um homem “estranho” que, perambulando, por um lado, entre o reconhecimento de sua natureza divina e de sua autoridade espiritual, e, por outro, pela sua inadequação no contexto racial binário do sul dos EUA, bagunça as classificações raciais, produzindo articulações e identificação com os oprimidos. O ensaio “O criado sem casa” também torna nítida a conexão com a religião. Nele, Du Bois ressalta que as relações de serviço foram racializadas e, por isso, desvalorizadas e desconsideradas na sociedade. No entanto, Du Bois ressalta que uma inversão do papel do serviço, inspirada nas palavras de Jesus, é positiva e central para a vida. Ao propor, em seu texto, a ideia de um mundo de serviço sem serviçais, Du Bois parece radicalizar a proposta a partir da experiência racializada negra.

Nesse sentido, Du Bois elabora uma expressão poética de matriz religiosa para reler o mundo, invertendo os polos considerados positivos, e para desnaturalizar aspectos sedimentados nas diversas instâncias de opressão. O resultado dessa abordagem é a complexificação dos contextos sociais e dos problemas deles advindos, proporcionando assim conexões inesperadas entre dominação política, econômica e racial. Se hoje ideias como capitalismo racial entraram com vigor na cena pública, é importante ressaltar que são devedoras de autores como Du Bois, que constataram que tal articulação é organizadora dos problemas sociais e não apenas seu reflexo ou origem.

Água escura funda um campo de reflexão que busca articular o problema racial com problemas do capitalismo, da guerra ou da opressão em sentido mais amplo, a partir de um experimento textual e existencial bastante heterogêneo. Entrelaçando contos, poemas, textos religiosos e ensaios, Du Bois elaborou um livro que preza por uma unidade multivocal, escapando tanto do particularismo – que acusa a branquidade de produzir – quanto das narrativas únicas. O uso amplo de categorizações raciais e a ênfase na multiplicidade dos tons de pele ou mesmo dos contextos negros estadunidenses são exemplos dessa complexidade. Outra composição notável é o estudo de problemas das mulheres, em particular das mulheres negras, para a compreensão dos problemas sociais estadunidenses. A despeito de possíveis limitações, que têm sido evocadas por feministas negras, “A maldição das mulheres” ainda é considerado um texto pioneiro.

No preâmbulo do livro, Du Bois enfatiza seu desejo de alcançar um “meio-tom”. A própria ideia que dá título ao livro evoca uma relação complexa entre luminosidade e escuridão. Essa é sem dúvida uma unidade literária do texto. A poética do “meio-tom” construída ao longo do livro pode ser lida como uma proposta estética para analisar e confrontar o problema político das divisões hierárquicas entre humanos baseada em um esquema cromático e em um binarismo entre luz e sombra. Redefinido os termos do debate que havia proposto uma década antes, Du Bois argumenta que a unidade proposta pelas categorias raciais é um esquema ficcional e consideravelmente persuasivo. Ele faz essa afirmação porque, para ele, não há raças, mas sim grupos que compartilham mais ou menos aspectos históricos, culturais e traços biológicos difusos. Contra esse esquema do mundo branco, que marginalizou a maior parte dos seres humanos, o autor evoca a categoria de mundo escuro: um mundo plural, composto pelas populações das Américas, Ásia e África, que enfrentam as tentativas do mundo branco de reduzir a sua humanidade. O meio-tom duboisiano é uma possibilidade política de lidar heterogeneamente com as divisões humanas.

O posfácio escrito por Matheus Gato sintetiza de modo original o diagnóstico de Du Bois: em Água escura, os leitores têm em mãos uma proposição experimental de um humanismo negro, que é menos uma tentativa de dar forma ao universal por meio do particular e mais uma proposta de um humanismo não excludente, calcado na materialidade da vida negra e nas suas formas de aliança. Nesse sentido, o posfácio é tanto uma boa introdução ao texto duboisiano quanto uma continuação de suas reflexões e de seu projeto político. Uma de suas qualidades principais é a qualificação da complexidade do projeto apresentado nas páginas do livro.

O convite para ler Água escura mais de cem anos depois de sua primeira edição, feito por aqueles que possibilitaram a publicação do livro em português – e pela primeira vez em outra língua que não o inglês –, é um convite a outro humanismo, a uma nova forma de ver a política, as suas crises e os problemas sociais e econômicos. Se, em As almas do povo negro, Du Bois afirmou que “o problema do século XX é o problema da linha de cor”, foi em Água escura que ele começou a esboçar uma análise e uma resposta a esse problema de forma global.

 

Isaac Palma Brandão é pesquisador de pós-doutorado no PPGAS (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social) e no Departamento de Antropologia Unicamp. Doutor em Sociologia (PPGS/UNICAMP) e mestre em Antropologia (PPGA/UFF). Bolsista FAPESP, foi pesquisador do Afro Cebrap no Projeto Du Bois e é autor do livro Desarquivar: a presença do racismo no caso Rafael Braga (2019). É membro do BITITA (UNICAMP) e do GAPS (UNICAMP).

 

Referências

Du Bois, W. E. B. As almas do povo negro. São Paulo: Veneta, 2021.

Du Bois, W. E. B. A igreja negra. São Paulo: Editora Recriar, 2024.  

Du Bois, W. E. B. Água escura: vozes de dentro do véu. São Paulo: Fósforo, 2025. 

____________________

 

Como citar esta resenha:

Brandão, Isaac Palma. “Uma poética do meio-tom”. blogNEC, 3 jun. 2026. Disponível em: <https://novosestudos.com.br/blognec-uma-poetica-do-meio-tom/>.

 

© Este texto foi publicado sob a licença CC-BY e seus direitos autorais permanecem com o autor.